Você pega o celular para responder uma mensagem e, antes de guardá-lo, já viu alguém viajando, uma conquista anunciada, um corpo aparentemente perfeito, uma notícia ruim, uma discussão, uma festa para a qual não foi e uma promoção que termina hoje. Foram poucos minutos, e mesmo assim você sai dali com a impressão de estar atrasado, produzindo pouco, vivendo menos que os outros. Nem sempre é uma sensação forte; às vezes é só uma inquietação, a vontade de olhar de novo, a dificuldade de se concentrar, o impulso de conferir se alguém respondeu, curtiu ou visualizou.
As redes não criaram a ansiedade. A gente sempre se comparou, teve medo de ser esquecido e quis saber o que os outros pensavam. A diferença é que agora tudo isso acompanha a pessoa o dia inteiro.
A ciência ainda não encontrou um único culpado
A pergunta "redes sociais causam ansiedade?" não tem resposta simples. Uma revisão publicada em 2024 no JAMA Pediatrics reuniu 143 estudos, com dados de mais de 1 milhão de adolescentes, e encontrou em média uma associação entre o uso das redes e sintomas de ansiedade e depressão, pequena e muito variável de um estudo para outro. O efeito existe para parte das pessoas; daí não se conclui que as redes produzam ansiedade em qualquer um.
Dois estudos recentes mostram por que a resposta pede cuidado. O primeiro acompanhou 25.629 adolescentes ingleses por três anos e, depois de separar as diferenças individuais entre os participantes, não encontrou evidência de que mais tempo de rede previsse ansiedade ou depressão mais tarde. O segundo, o SCAMP, seguiu 2.350 adolescentes de Londres e observou outro quadro: quem passava mais de três horas por dia nas redes aos 11 ou 12 anos chegou aos 13 a 15 com mais sintomas do que quem usava até meia hora, e, para a ansiedade clinicamente significativa, o grupo de maior uso teve chances 60% maiores. Também aqui o estudo mostra associação, sem provar causa única. Os dois resultados não se anulam, porque os grupos, os métodos e as perguntas eram diferentes, e juntos ensinam que contar horas não basta.
Duas pessoas podem passar a mesma hora no Instagram. Uma conversa com amigos, encontra apoio e fecha o aplicativo se sentindo bem; a outra compara o próprio corpo, acompanha discussões, procura aprovação e espera uma resposta que não chega. No relógio, o uso foi igual. Na cabeça, foram experiências completamente diferentes.
Acervo MIMOA vida dos outros chega editada
Ninguém publica a própria vida inteira. Publica a viagem sem a discussão que houve no hotel, a promoção sem os anos de insegurança, a foto bonita do casal sem o silêncio dentro de casa, o corpo no melhor ângulo, com a melhor luz e, muitas vezes, depois de tratamentos, filtros e várias tentativas. Mesmo quem sabe de tudo isso se compara.
Num estudo com 200 crianças e adolescentes de 10 a 14 anos, acompanhados por 14 dias com perguntas diárias sobre redes, autoestima e comparação, os dias de maior uso foram também os de pior percepção de si, e parte dessa relação passava pela impressão de que os outros eram mais bonitos, mais populares ou viviam melhor. Outro trabalho aproveitou a chegada gradual do Facebook às universidades americanas, no início da plataforma, como experimento natural: onde a rede entrava, os indicadores de saúde mental pioravam e cresciam as dificuldades acadêmicas ligadas ao sofrimento emocional, com a comparação desfavorável apontada como explicação provável. O Facebook daquela época não é o aplicativo de hoje, e o mecanismo continua reconhecível: quanto mais a vida alheia fica disponível, maior o material de comparação, e quase sempre comparamos o nosso dia comum com o melhor momento que alguém decidiu mostrar.
Acervo MIMOA aprovação ganhou um placar
Antes das redes, uma conversa podia terminar e deixar dúvida. Hoje parte dessas dúvidas ganhou horário, número e confirmação de leitura: visualizou e não respondeu; todo mundo curtiu, menos ele; minha foto teve menos comentários. A interação virou medição, e curtidas, seguidores e visualizações funcionam como pequenos sinais públicos de aceitação ou rejeição. Para algumas pessoas, isso pouco importa. Para outras, começa o ciclo de conferir, apagar, repostar, interpretar e esperar.
Uma metanálise de 2024, que reuniu 172 artigos, 209 amostras e mais de 252 mil participantes de 28 países, encontrou correlações moderadas entre o chamado uso problemático das redes e ansiedade generalizada, ansiedade social, ansiedade nos relacionamentos e medo de ficar de fora. Uso problemático não é sinônimo de muito tempo online: é o padrão em que a pessoa tem dificuldade de parar, volta às redes no automático e deixa que elas disputem espaço com sono, trabalho, estudo e relacionamentos. A maior parte desses estudos era transversal, ou seja, mostra ansiedade e uso problemático andando juntos sem conseguir dizer quem chegou primeiro.
O medo de ficar de fora nunca descansa
Antes, uma festa para a qual você não foi acabava quando a festa terminava. Agora ela continua nos stories: quem estava lá, quem chegou depois, quem ficou perto de quem, o que aconteceu quando você já dormia. A expressão inglesa fear of missing out, o FoMO, dá nome a esse medo de que os outros estejam vivendo algo importante sem você, e na metanálise dos 252 mil participantes foi justamente o FoMO que apresentou uma das associações mais fortes com o uso problemático. Como o feed nunca termina, também nunca chega o momento em que a pessoa possa se dar por satisfeita: sempre parece haver uma conversa, uma oportunidade ou um acontecimento exigindo acompanhamento.
O sono paga parte da conta
Muita gente percebe a ansiedade nas redes e não percebe o que acontece depois que o celular é guardado. No SCAMP, parte da associação entre o uso prolongado e os sintomas posteriores passou pelo sono insuficiente e pela demora para adormecer: nos modelos estatísticos, os problemas de sono explicaram de 11% a 33% dessas associações, conforme o desfecho analisado. O celular na cama não incomoda só pela luz da tela. Há mensagens pedindo resposta, vídeos que estimulam, discussões que irritam e notícias que assustam, que mantêm a cabeça funcionando quando o corpo deveria desacelerar.
Um estudo com 10.904 adolescentes de 14 anos encontrou relações parecidas: mais rede, pior sono, assédio online, autoestima baixa e insatisfação com o corpo, tudo ligado a mais sintomas depressivos, sem que o desenho observacional permita cravar a ordem dos fatores. A pessoa dorme tarde, acorda cansada, fica irritável e vulnerável à preocupação, e no dia seguinte usa o celular para se distrair do próprio desconforto. O ciclo recomeça.
Acervo MIMOÀs vezes, a ansiedade vem primeiro
Também existe o caminho contrário. Quem já está ansioso pode procurar as redes com mais frequência para se distrair, evitar uma conversa presencial, buscar confirmação de que está tudo bem ou conferir repetidamente se alguém respondeu. O alívio dura pouco; logo surge outra notificação, outra dúvida, outra coisa para verificar. Por isso a seta não aponta sempre da rede para a ansiedade. Em muitas situações a relação é circular: a ansiedade leva a mais conferência, que leva a mais comparação e a menos sono, e tudo devolve mais ansiedade. O estudo dos 25.629 adolescentes, que não encontrou efeito posterior do tempo de uso, reforça que a rede não deve virar explicação automática para todo sofrimento emocional.
A seta anda nos dois sentidos. As redes podem aumentar a ansiedade, e quem já está ansioso também recorre mais a elas. Desenhar o circuito numa direção só afirmaria causa onde a pesquisa mostra associação.
Nem todo mundo sai pior das redes
Nada disso torna as redes sempre prejudiciais. Elas aproximam pessoas, mantêm amizades, criam comunidades e fazem companhia a quem está isolado. Um estudo pequeno, com 63 adolescentes de 14 e 15 anos e 2.155 avaliações feitas em tempo real, mediu como cada um se sentia logo após o uso passivo: 44% não notaram diferença, 46% se sentiram melhor e cerca de 10% se sentiram pior. O estudo mediu uma sensação momentânea, e não um transtorno de ansiedade. O aplicativo pode ser o mesmo; o efeito depende de quem usa, do momento emocional, do conteúdo que aparece e do que aquele uso está substituindo. Além de quanto tempo você passa nas redes, importa como você fica depois de sair delas.
Acervo MIMOParar ou reduzir ajuda?
Alguns experimentos sugerem que sim, ao menos no curto prazo. Num ensaio randomizado, 154 adultos com idade média de 29,6 anos foram divididos entre uma semana sem Facebook, Instagram, Twitter e TikTok e uma semana de uso habitual; o grupo que interrompeu terminou com melhor bem-estar e menos sintomas de ansiedade e depressão, num estudo de apenas sete dias, que não responde o que aconteceria em meses. Outro ensaio acompanhou 220 jovens de 17 a 25 anos que já apresentavam sofrimento emocional; os orientados a limitar as redes do celular a cerca de uma hora por dia, durante três semanas e com o tempo medido pelo próprio aparelho, tiveram queda maior de ansiedade, depressão e FoMO, além de mais tempo de sono. Esses estudos não estabelecem uma receita universal de uma hora por dia nem mandam ninguém abandonar as redes; mostram que, para algumas pessoas, reduzir o uso funciona como um teste revelador.
A rede não explica tudo
As redes podem ampliar uma ansiedade que já existia, roubar horas de sono e prender a pessoa num circuito de comparação e expectativa, e mesmo assim não são a origem de toda ansiedade. Quando a preocupação continua longe do celular, provoca crises, altera o sono ou começa a atrapalhar trabalho, estudo e relacionamentos, o cuidado precisa ir além da tela, com avaliação profissional. Apagar um aplicativo ajuda; não substitui o cuidado com a saúde mental. Importa menos o tempo que você passa nas redes e mais o que encontra ali, como se sente depois e o que deixou de dormir ou de viver enquanto a tela rolava.
Acervo MIMONão é só quanto tempo. É o que acontece durante esse tempo.
Uso que aproxima
- Conversar com alguém de verdade
- Encontrar apoio em quem passa pelo mesmo
- Aprender algo que você queria saber
- Manter contato com amigos e família distantes
Uso que esgota
- Comparar-se o tempo todo
- Conferir curtidas, respostas e visualizações
- Acompanhar conflitos alheios
- Perder horas de sono
- Sentir que está sempre ficando de fora
O objetivo não é vencer o telefone. É descobrir se o uso ainda está servindo à vida que acontece fora dele.
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