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Acervo MIMO
Carta ao Leitor
5 min de leitura
Antes de decolar
Revista MIMO, edição número 1
RCRoberto ChristianoMédico, CRM 96375-SP · Piloto de Linha Aérea · Fundador da MIMO Benefícios
Antes de qualquer decolagem, o piloto para e lê o checklist em voz alta, item por item. Nos aviões mais antigos, o dedo acompanha cada linha da lista impressa. Em muitos deles, o checklist já vem impresso no próprio manche. Em aeronaves mais modernas, um cursor percorre a sequência na tela. Não importa quantas vezes aquela rota já tenha sido voada, nem se o voo está atrasado ou se o dia foi longo. A experiência conta muito, claro, mas não substitui a leitura e a confirmação de cada item. Em todos esses anos voando, nunca vi alguém simplesmente decidir que, naquele dia, o checklist poderia ser dispensado.
Fora da cabine, no entanto, fazemos isso conosco o tempo todo. Dormimos mal e seguimos. Emendamos uma semana puxada na outra. Percebemos que alguma coisa não está bem, mas deixamos para olhar depois, quando houver tempo, como se o corpo pudesse esperar indefinidamente. Na aviação, chamamos de complacência o momento em que a rotina começa a criar uma falsa sensação de segurança. Como ontem deu certo, o piloto acredita que hoje também dará. E muitos acidentes começaram assim: não com uma grande falha, mas com uma soma de pequenos detalhes que passaram despercebidos em um dia aparentemente comum.
Com o corpo acontece algo parecido. O desgaste quase nunca chega de uma vez. Ele vai se acumulando durante semanas, meses e, algumas vezes, anos, até aparecer de um jeito que já não dá para ignorar. Ninguém desaba numa terça-feira apenas por causa daquela terça-feira. Assim como um acidente aéreo raramente acontece por uma única falha, muitas doenças também aparecem depois de uma soma de fatores que foi se formando ao longo do tempo.
Vejo isso de perto há mais de 28 anos na medicina. Uma das frases que mais ouço na sala de emergência é: “Achei que fosse só cansaço”. A pessoa chega com noites mal dormidas, dor de cabeça, coração disparado, irritação, falta de ar ou um mal-estar difícil de explicar. Conforme a conversa avança, aparecem a jornada de trabalho exaustiva, o telefone tocando no domingo, a pressão por metas humanamente inatingíveis, a alimentação ruim, a falta de exercício e o descanso sempre deixado para depois. Na maioria das vezes, os sinais já estavam ali havia algum tempo. Faltou espaço para olhar para eles e, às vezes, coragem também.
Talvez seja isso que a aviação e a medicina tenham em comum para mim. O checklist existe principalmente para os dias comuns, quando a pressa, o hábito e a confiança podem fazer a gente baixar a guarda. A medicina mostra o que pode acontecer quando esse cuidado vai sendo adiado. Esta revista nasceu da convivência entre esses dois mundos, a cabine e a sala de emergência, e tem uma proposta simples: falar de saúde de um jeito claro, próximo e útil para quem trabalha, cuida da família, enfrenta dias corridos e quase sempre se coloca por último.
Nesta primeira edição, o “Cabeça em Dia” tenta entender por que as redes sociais têm deixado tanta gente ansiosa. O “Tira-Teima” responde a três perguntas que aparecem com frequência no consultório: dormir seis horas por noite é suficiente? Comer à noite engorda? Colesterol alto dá sintomas? E, para quem cuida de pessoas dentro de uma empresa, a reportagem de capa explica a NR-1 desde o começo e mostra, de forma clara, o que ela muda na rotina das empresas. O assunto ganhou importância neste ano, mas ainda existe muita dúvida sobre o que realmente precisa ser feito.
Não sei até onde uma revista consegue mudar a rotina de alguém. Talvez mude muito pouco. Mas, se uma página levar uma pessoa a marcar a consulta que vinha adiando, perceber que não está bem ou prestar mais atenção ao próprio corpo, a revista já terá cumprido seu papel. E, se ajudar um gestor a entender que uma escala mal montada, uma cobrança sem medida ou a exaustão constante de uma equipe podem fazer as pessoas adoecer, terá feito algo importante.
Esta revista é uma iniciativa da MIMO Benefícios, que trabalha para aproximar a saúde e o bem-estar da vida das pessoas e das empresas. Quem quiser conhecer melhor o nosso trabalho encontra mais informações em mimobeneficios.com.
Espero que estas páginas sejam úteis e que alguma delas faça sentido para você. Na aviação, ninguém espera que o problema apareça para só então abrir o checklist. Com a saúde, talvez também não seja uma boa ideia esperar o susto.
Boa leitura.
Roberto ChristianoMédico, CRM 96375-SPPiloto de Linha AéreaFundador da MIMO Benefícios
Acervo MIMOA cadeira vazia: do lado de dentro da empresa, é assim que um afastamento se parece
Em Números
3 min de leitura
Seis números que explicam por que esta edição existe
Os dados mostram a dimensão dos afastamentos, dos benefícios e dos conflitos que chegam à Justiça.
546.254
benefícios por transtornos mentais concedidos em 2025
Eram 283.471 em 2023 e 472.328 em 2024.
Fonte: Ministério da Previdência Social
R$ 954 mi
o valor das novas concessões no ano
Soma a renda mensal inicial dos benefícios novos, e não a despesa total do período.
Fonte: ANAMT, sobre microdados do INSS
182.937
concessões por transtornos depressivos em 2025
São 122.222 episódios depressivos e 60.715 de depressão recorrente.
Fonte: ANAMT, sobre microdados do INSS
6.985
afastamentos por burnout em 2025
Eram 1.760 em 2023.
Fonte: ANAMT, sobre microdados do INSS
116.739
ações por dano moral decorrente de assédio, só em 2024
Alta de 28% sobre 2023, e 458.164 ajuizadas entre 2020 e 2024.
Fonte: Conselho Superior da Justiça do Trabalho
63,46%
dos benefícios foram concedidos a mulheres
São 346.613 de 546.254. São Paulo lidera os estados, com 149.375.
Fonte: Ministério da Previdência Social
Acervo MIMOA pilha: cada ação por dano moral começou numa conversa que ninguém registrou
Marco Ankosqui/MTurPraia do Patacho: coqueiros, água rasa e uma sombra que vale guardar
MIMO Viagens
12 min de leitura
O relógio da maré
Em São Miguel dos Milagres, planejar menos não significa improvisar: basta olhar a maré e deixar o dia seguir o mar.
Nathalia FerreiraGerente de Marketing da MIMO
São Miguel dos Milagres, litoral norte de Alagoas
Em São Miguel dos Milagres, o primeiro plano do dia cabe numa pergunta: que horas a maré baixa? A resposta decide o horário da jangada, o momento das piscinas naturais e até a praia que vale visitar. Quem chega com a agenda fechada logo aprende a olhar o mar antes do relógio. A rotina fica mais simples a partir daí.
A Marinha publica gratuitamente as tábuas de maré, e a previsão de Maceió serve de referência para esta parte do litoral. O horário muda todos os dias, acompanhando o ciclo da Lua. Vale consultar a tábua antes de reservar o passeio e confirmar de novo na véspera com o jangadeiro, que conhece o tempo de deslocamento até os recifes.
Em Milagres, o primeiro compromisso do dia é com a Lua.
O nome da cidade também veio do mar, segundo a tradição local. Um pescador teria encontrado na areia uma peça de madeira coberta de algas. Depois da limpeza, apareceu uma imagem de São Miguel Arcanjo, associada à cura de uma doença. A imagem continua na igreja e a história reaparece nas conversas da vila, especialmente na festa do padroeiro, em 21 de janeiro.
A ocupação é mais antiga que a lenda. Famílias vindas de Porto Calvo se instalaram perto dos rios no século XVII, quando o açúcar e o coco moviam a região. Hoje o município reúne cerca de 8,7 mil habitantes em 77 quilômetros quadrados e ainda conserva ruas baixas, trechos de areia batida e coqueirais junto à praia. São Miguel fica dentro da APA Costa dos Corais, ampliada em 2025 para 495 mil hectares.
Rafael Vianna CroffiPovoado do Riacho: a capela entre o campo aberto e o coqueiral
Uma praia para cada hora
A Rota Ecológica dos Milagres atravessa Passo de Camaragibe, São Miguel dos Milagres e Porto de Pedras em pouco mais de vinte quilômetros. A estrada é estreita, o carro anda devagar e a praia quase nunca aparece atrás de uma avenida. O caminho passa por povoados, pousadas pequenas, coqueirais e acessos discretos que terminam na areia.
Cada praia combina melhor com um tipo de dia. Porto da Rua concentra bares e movimento. Toque e Marceneiro oferecem estrutura. Riacho estende uma faixa longa e sossegada. Patacho reúne coqueiral e piscinas naturais, enquanto Lages agrada a quem prefere levar água, canga e quase mais nada. As distâncias curtas permitem trocar de praia sem transformar o passeio numa corrida.
Marco Ankosqui/MTurCaminho para o Toque: um portal de bambu marca a descida até o mar
A maré ajuda na escolha. Quando enche, a faixa de areia diminui e sombra, cadeira e quiosque fazem diferença. Na vazante, o fundo aparece, a água fica rasa e as piscinas se desenham entre os recifes. O vento costuma crescer à tarde, por isso os passeios de jangada saem cedo e a segunda metade do dia combina melhor com almoço comprido ou varanda.
Marco Ankosqui/MTurPraia do Toque: mesmo no sábado, a areia ainda encontra espaço para respirar
A linha de espuma paralela à praia mostra onde o recife segura as ondas. Entre essa barreira e a areia fica a água mansa das piscinas naturais. O recife está vivo e atravessou um período duro: no evento de calor de 2023 e 2024, os recifes rasos do Nordeste registraram mortalidade elevada. Em Maragogi, na mesma área de proteção, morreram 88% dos corais acompanhados pelo estudo. Visitar com cuidado passou a ser parte do passeio.
O recife que forma a piscina está vivo. Visitar bem começa por deixar cada passo onde o condutor orientar.
Marcos Pereira JúniorMaré baixa: o recife exposto segura a onda e forma as piscinas
No Tatuamunha, o passeio é silêncio
Em Tatuamunha, uma associação criada por moradores e pescadores conduz a visita ao peixe-boi-marinho. O grupo atravessa o manguezal e segue de canoa a remo pelo rio. O motor fica de fora, as vozes baixam e o guia procura os animais que vivem soltos. A visita dura cerca de uma hora, custa R$ 100 no fechamento desta edição e precisa de reserva, especialmente na alta temporada.
O Projeto Peixe-Boi atua em Alagoas desde 1992, e o programa de soltura começou dois anos depois. Porto de Pedras tornou-se uma das áreas centrais para devolver animais reabilitados ao ambiente natural. O trabalho ajuda a reconstruir uma população pequena e fragmentada ao longo da costa brasileira.
O encontro com o peixe-boi depende dele. Há dias em que o animal chega perto da canoa e outros em que desaparece no rio. A associação mantém poucas vagas, proíbe motor, toque e alimentação e usa a visitação para financiar conservação e renda local. A caminhada pelo manguezal e o silêncio do percurso sustentam o passeio mesmo quando nenhum focinho rompe a água.
A canoa sai sem motor e sem promessa de encontro. O silêncio já faz parte do passeio.
Acervo MIMOMaré vazia: a jangada espera na areia até a água subir de novo
As piscinas naturais seguem regras parecidas. O plano de manejo determina áreas, horários e limite de visitantes. Dentro d'água, o cuidado é direto: manter distância dos animais, deixar peixes sem alimento e caminhar apenas onde o condutor orientar. O coral parece pedra quando a maré baixa, mas continua sendo um organismo vivo.
Otávio NogueiraMirante do Cruzeiro: do alto, aparece a linha em que os recifes seguram as ondas
A paisagem continua em disputa
Milagres cresceu com pousadas pequenas, muitas escondidas atrás do coqueiral. Esse desenho preservou uma orla baixa e espalhou hóspedes por diferentes povoados. Ao mesmo tempo, o valor da terra aumentou, surgiram empreendimentos maiores e alguns caminhos usados para chegar à praia ficaram estreitos ou bloqueados.
Em abril de 2026, a prefeitura acatou uma recomendação do Ministério Público Federal e suspendeu novos alvarás e os efeitos de licenças na região da Praia do Toque até que o acesso público adequado fosse garantido. O Plano Diretor prevê passagens para a praia a cada 500 metros. A discussão trata de circulação, mas também define que tipo de destino poderá existir ali nos próximos anos.
A conta inclui água, esgoto, lixo e trânsito. Na alta temporada, uma cidade de 8,7 mil habitantes recebe várias vezes sua população habitual, e cada novo quarto pressiona a mesma infraestrutura. O futuro da paisagem depende tanto do saneamento e dos acessos quanto da altura dos prédios.
A MIMO não recebeu hospedagem, passeio ou refeição para produzir esta reportagem. Essa independência permite olhar para o encanto e para a disputa ao mesmo tempo. Quem visita participa desse futuro ao escolher onde ficar, respeitar os acessos, contratar guias locais e seguir as regras das áreas protegidas.
Crescer sem esconder a praia é o desafio que a vila enfrenta agora.
Marco Ankosqui/MTurA rota: coqueiral, areia e mar dentro da APA Costa dos Corais
A mesa segue o mar
A cozinha acompanha o ritmo da costa. Peixada à milagrense, sururu ao leite de coco e tapioca de lagosta aparecem em restaurantes de quintal e mesas voltadas para o mar. O peixe do dia chega com leite de coco, dendê e acompanhamentos simples, muitas vezes na panela de barro em que foi preparado.
O almoço pede tempo. A pesca, a maré e o movimento do dia influenciam o cardápio, enquanto o jantar começa e termina cedo. Por volta das dez da noite, boa parte da rua já escureceu e o som do mar ocupa o lugar da música alta. Depois de dois ou três dias, esse horário deixa de parecer falta de opção e começa a organizar o descanso.
Descansar sem esperar pelas próximas férias
Um estudo com quase 20 mil pessoas encontrou associação entre pelo menos 120 minutos semanais de contato com a natureza e melhores indicadores de saúde e bem-estar. A pesquisa não transforma praia em tratamento, mas ajuda a entender por que caminhar, olhar o horizonte e passar parte do dia ao ar livre pode fazer bem.
Uma meta-análise sobre férias chegou a outra conclusão útil: o bem-estar melhora durante a pausa e tende a cair depois da volta. Os autores sugerem distribuir descansos ao longo do ano. Milagres funciona bem para uma viagem curta porque o dia se organiza com poucos elementos: maré, comida, caminhada e sono. A lembrança mais valiosa talvez seja perceber que uma pausa não precisa esperar doze meses.
Acervo MIMOFim de tarde: a vila desce à areia para ver a água mudar de cor
No fim da tarde, o farol de Porto de Pedras oferece a vista do rio encontrando o mar. Também dá para ficar na areia e acompanhar a água mudando de cor ao lado das jangadas. Na manhã seguinte, a maré baixa em outro horário. A essa altura, o visitante já aprendeu a esperá-la sem pressa.
Onde conferimos
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. São Miguel dos Milagres (AL): cidades e estados. Abrir fonte
Assembleia Legislativa de Alagoas. São Miguel dos Milagres: municípios alagoanos. Abrir fonte
Brasil. Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Uma das maiores unidades de conservação marinha do país, APA Costa dos Corais é ampliada pelo governo federal. 05/06/2025. Abrir fonte
Mies M. et al.. Coral bleaching and mortality across a 24° latitudinal range in the Southwestern Atlantic during the fourth global bleaching event. Coral Reefs. 11/09/2025. DOI 10.1007/s00338-025-02743-5
Brasil. Ministério do Turismo. Rota dos Milagres é opção para quem busca descanso e praias paradisíacas em Alagoas. Abrir fonte
Associação Peixe-Boi. Visitação ao peixe-boi. Abrir fonte
Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Peixe-boi será reintroduzido na Costa dos Corais; e plano de manejo da APA, com o ordenamento da visitação. Abrir fonte
Ministério Público Federal. Atendendo ao MPF, município de São Miguel dos Milagres suspende obras na orla. 09/04/2026. Abrir fonte
Brasil. Marinha do Brasil. Capitania dos Portos de Alagoas. Farol de Porto de Pedras; e tábuas das marés 2026, com a previsão de 44 portos da costa. Abrir fonte
White M. P. et al.. Spending at least 120 minutes a week in nature is associated with good health and wellbeing. Scientific Reports. 13/06/2019. DOI 10.1038/s41598-019-44097-3
Speth F.; Wendsche J.; Wegge J.. We continue to recover through vacation! Meta-analysis of vacation effects on well-being and its fade-out. European Psychologist. 01/10/2023. DOI 10.1027/1016-9040/a000518
Melhores Destinos. Quando ir a São Miguel dos Milagres: dicas da melhor época. Abrir fonte
Viaje na Viagem. O que fazer em São Miguel dos Milagres: 10 praias e passeios. Abrir fonte
Acervo MIMO · ilustração editorialQuem faz o serviço ajuda a mostrar onde estão os riscos do trabalho
Reportagem de Capa
16 min de leitura
NR-1: o que muda e por onde começar
Os fatores psicossociais passam a fazer parte do gerenciamento de riscos. Entenda como avaliar o trabalho, organizar os registros e definir as primeiras medidas.
Dr. Vitor MartinsDiretor Jurídico da MIMO
Para entender o que a NR-1 pretende alcançar, acompanhe uma troca de turno. A fila cresce, a equipe corre, a meta aperta e a pausa some justamente no dia de maior movimento. É nessa rotina, vista de perto e contada por quem a conhece, que a empresa identifica os perigos, avalia os riscos e escolhe o que precisa mudar.
Desde 26 de maio de 2026, o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) precisa incluir, de forma expressa, os fatores psicossociais relacionados ao trabalho. A empresa começa por observar a atividade e ouvir quem a realiza. Questionários, palestras e benefícios podem contribuir, desde que acompanhados de decisões sobre carga de trabalho, escala, autonomia, apoio e relações de trabalho.
O que é fiscalizado?
Em uma fiscalização, é comum que se solicite o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) para análise. A partir daí, compreende-se o inventário de riscos, confere-se o plano de ação e pergunta-se à empresa como chegou a essas prioridades. Os critérios podem estar no próprio inventário ou num anexo, desde que expliquem com clareza como a severidade, a probabilidade e o nível de risco foram definidos.
A fiscalização cruza três versões da mesma história: o trabalho realizado, o registro feito pela empresa e as medidas adotadas. Quando há coerência, o documento mostra seu valor. Quando o documento não passa de um mero registro sem realidade fática, a fiscalização percebe que há uma distância entre os registros e a rotina da empresa.
Acervo MIMO · Ilustração editorialAntes do formulário: caminhar pelo processo revela gargalos que a sala de reunião raramente mostra
Como GRO e PGR se encaixam?
O Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, conhecido pela sigla GRO, acompanha um movimento contínuo: identificar perigos, avaliar riscos, implementar medidas, monitorar resultados e revisar o que for necessário. O Programa de Gerenciamento de Riscos, o PGR, registra esse percurso em documentos que a empresa consulta, discute e atualiza constantemente.
O PGR começa com dois documentos
O primeiro documento, o inventário de riscos ocupacionais, descreve os processos, os ambientes e as atividades. Ali aparecem os perigos, os possíveis agravos, as pessoas expostas, as proteções existentes e a classificação de cada risco, feita a partir de critérios documentados.
O segundo é o plano de ação, onde entram as medidas que serão implantadas, aprimoradas ou mantidas. Cada uma precisa de prazo, responsável e uma forma de acompanhar o resultado. A empresa também registra os critérios usados na classificação dos riscos, seja no inventário, seja num documento anexado a ele.
Acervo MIMO · Ilustração editorialDuas peças: o inventário registra o que foi encontrado e o plano de ação organiza o que será feito
O inventário liga o problema à rotina
Uma boa entrada no inventário conta a história completa ao identificar o perigo, descrever quando ele ocorre, informar quem está exposto, registrar os possíveis agravos, mostrar as proteções existentes e classificar o risco. Uma simples anotação “sobrecarga: risco alto” é inconclusiva; em vez de apontar caminhos, deixa perguntas em aberto e ajuda pouco na hora de escolher uma medida a ser implementada.
Os critérios de severidade e probabilidade precisam ser documentados e aplicados de forma consistente. Ao avaliar fatores psicossociais, a empresa observa as exigências da atividade e a proteção oferecida pelas medidas existentes. Entra nessa leitura a frequência da condição, sua duração, o número de pessoas alcançadas e o controle que a equipe tem sobre o trabalho.
Quem entra nessa regra?
Todo empregador com trabalhadores regidos pela CLT deve gerenciar os riscos ocupacionais. O MEI tem dispensa da elaboração do PGR. Microempresas e empresas de pequeno porte enquadradas nos graus de risco 1 e 2 também podem obter a dispensa, desde que cumpram todas as condições da NR-1 e façam a declaração no sistema da Inspeção do Trabalho.
Mesmo com a dispensa do PGR, a prevenção continua obrigatória. O material publicado pelo Ministério em 2026 orienta todas as empresas a avaliar as situações de trabalho por meio da Avaliação Ergonômica Preliminar prevista na NR-17, incluindo os fatores psicossociais. Quando essa primeira leitura aponta uma situação mais complexa, a Análise Ergonômica do Trabalho aprofunda o estudo.
AEP, AET e PGR: o papel de cada um
A Avaliação Ergonômica Preliminar, a AEP, oferece a primeira leitura das situações de trabalho. O registro reúne a organização da rotina, as exigências da atividade, as condições de execução e as medidas necessárias. A NR-17 prevê a realização de Análise Ergonômica do Trabalho (AET) quando surgem inadequações que demandam aprofundamento ou quando o acompanhamento de saúde indica essa necessidade. A própria NR-17 confere tratamento diferenciado ao MEI, à microempresa e à empresa de pequeno porte quanto à exigência de AET.
Os resultados da AEP e da AET alimentam o inventário e o plano de ação. Assim, a empresa mantém uma linha de raciocínio para cada setor: a ergonomia observa e aprofunda a atividade, o GRO reúne os perigos e o PGR registra prioridades, medidas e o acompanhamento.
Onde o risco psicossocial aparece?
O risco psicossocial pode surgir na forma como o trabalho foi concebido, organizado e conduzido. Sobrecarga, falta de tarefa, pouca autonomia, papéis confusos, apoio insuficiente, injustiça, assédio, violência, isolamento e mudanças mal conduzidas são exemplos. Cada setor combina essas condições de um jeito; por isso, a observação precisa acompanhar a atividade concreta.
As diretrizes publicadas pela Fundacentro em maio de 2026 (orientação técnica, sem força normativa) recomendam ouvir a experiência dos trabalhadores e evitar explicações que atribuam o problema à fragilidade de alguém. O foco permanece nas condições do processo: o que aumenta a chance de dano, em que momento isso ocorre e como a organização pode intervir.
Acervo MIMO · Ilustração editorialCarga e apoio: demanda, autonomia e suporte se combinam de maneira diferente em cada equipe
Como avaliar sem transformar tudo em diagnóstico
O Ministério do Trabalho não homologou um questionário único. Cabe à organização escolher um método de avaliação de risco adequado, com fundamento técnico, e explicar por que o adotou. A obrigação é de meio qualificado: a empresa responde pela consistência técnica do processo que adotou, e um afastamento isolado não comprova, por si, descumprimento da norma. A avaliação ganha consistência quando combina a observação da atividade com conversas, grupos e dados de jornada, pausas, retrabalho, afastamentos e rotatividade.
Uma avaliação qualitativa também pode ser rigorosa. Quem conduz o trabalho precisa conhecer a atividade, registrar a coleta de informações e mostrar como cada achado levou à classificação e à medida. Se houver questionário, as respostas servem para identificar padrões coletivos e condições de trabalho, sempre com proteção para que pessoas e chefias não sejam expostas em rankings.
Acervo MIMO · Ilustração editorialEscuta situada: quem executa a tarefa ajuda a mostrar onde a organização aperta e onde oferece proteção
Como um relato se transforma em avaliação?
Um relato pode indicar pontos de atenção e atividades a observar. Se os trabalhadores dizem que nunca conseguem parar, ou seja, se são constantemente obrigados a produzir sem qualquer descanso, a equipe responsável pode acompanhar os picos, conferir jornadas e intervalos, entender quem cobre as ausências e comparar os turnos. Quando diferentes fontes apontam para a mesma condição, a avaliação fica mais segura e evita que uma impressão isolada se torne uma conclusão geral e equivocada.
Perigo, dano e indicador ocupam lugares distintos nessa leitura. Uma meta incompatível com o tamanho da equipe pode representar um perigo. Exaustão e adoecimento podem se manifestar como danos. Horas extras, pausas perdidas, retrabalho, pedidos de transferência e afastamentos dão sinais do que está acontecendo. A classificação indica como a empresa registrou essas informações.
Os trabalhadores participam ao descrever a atividade, conferir se a análise reconhece a rotina e discutir possíveis medidas. A organização continua responsável pelas decisões, com a vantagem de decidir com base no serviço que realmente acontece, incluindo os improvisos e os obstáculos que nenhum procedimento prevê e somente uma análise detalhada e na operação é capaz de identificar.
A mudança precisa chegar à rotina
A hierarquia da prevenção orienta a empresa a começar pela fonte do risco. Dependendo do problema, será preciso redimensionar metas, recompor a equipe, rever a escala, retirar tarefas sem utilidade, ampliar a autonomia na sequência do serviço ou interromper práticas de gestão baseadas em cobranças excessivas. Medidas coletivas e administrativas complementam a proteção e reduzem a exposição.
Apoio psicológico, programas de assistência e formação de lideranças têm valor como recursos complementares. Ao mesmo tempo, uma equipe insuficiente continuará sobrecarregada até que a empresa reveja a carga de trabalho, o quadro de pessoal ou a forma de organizar o serviço. O cuidado individual funciona melhor quando a rotina também recebe atenção.
Acervo MIMO · Ilustração editorialNa origem: redistribuir o volume e dar previsibilidade reduz a pressão sobre quem já chegou ao limite
Um exemplo que poderia acontecer em muitos setores
Imagine uma equipe de dezenove pessoas atendendo um volume de clientes que já ultrapassou a capacidade do setor. As horas extras viraram rotina e os intervalos desaparecem nos dias mais cheios. No inventário, a expressão “excesso de demandas” vem acompanhada das circunstâncias, dos grupos expostos, da duração, das proteções existentes e dos possíveis agravos. A classificação considera como essa exposição se combina com as consequências possíveis e com a proteção disponível.
O plano pode começar com prioridade semanal das tarefas, revisão das metas, mais autonomia na organização dos horários, pausas fora do posto e redistribuição da carteira. Se a equipe ficou pequena para o volume permanente, a recomposição do quadro passa a ser a medida central. Cada ação recebe um responsável, um prazo e sinais de acompanhamento, como horas extras, pausas realizadas, tamanho da fila e retrabalho.
Algum tempo depois, a empresa volta à atividade para avaliar se o risco permaneceu. Talvez a fila tenha diminuído enquanto o retrabalho cresceu, ou a meta tenha se ajustado a um turno e continuado impossível no outro. O acompanhamento revela esses efeitos e permite corrigir o plano sem precisar esperar pela revisão periódica.
Recursos que ajudam, cada um no seu lugar
Pesquisa de clima: ajuda a perceber padrões e ganha utilidade quando conversa com o inventário, a classificação e o plano de ação.
Palestra ou semana temática: informa e abre conversa; carga excessiva, assédio e falta de autonomia pedem medidas na rotina.
Aplicativo de bem-estar: pode apoiar o cuidado individual enquanto a empresa atua sobre as condições que produziram o risco.
Triagem individual obrigatória: expõe informações sensíveis e desloca a atenção para a pessoa; a avaliação ocupacional olha primeiro para o trabalho.
Para ouvir bem, é preciso proteger
Informações sobre saúde são dados pessoais sensíveis segundo a LGPD. Antes da coleta, a empresa define a finalidade, a base legal, quem terá acesso, por quanto tempo guardará o material e como o protegerá. Para gerir o risco, costuma ser mais útil reunir os dados por atividade, setor ou condição de trabalho, em grupos grandes o bastante para preservar as pessoas.
Em equipes pequenas, a combinação de turno, idade, cargo e resposta pode revelar uma pessoa mesmo sem o nome. Por isso, a promessa de anonimato depende do desenho da pesquisa. Menos campos, separação entre a escuta e a chefia direta e divulgação apenas de padrões coletivos aumentam a confiança e reduzem o risco jurídico.
Acervo MIMO · Ilustração editorialEscuta protegida: quando as pessoas confiam no processo, a conversa se aproxima do que realmente acontece
A situação em agosto de 2026
A redação que inclui expressamente os fatores psicossociais está em vigor desde 26 de maio. Em 25 de junho, uma decisão liminar na ADPF 1316 suspendeu por noventa dias a aplicação de sanções ligadas a pontos específicos do tema e abriu uma conciliação no STF. Como o julgamento no Plenário virtual estava previsto para ocorrer entre 7 e 18 de agosto, esta edição registra o cenário disponível no fechamento, sem antecipar o resultado.
A decisão suspendeu as sanções ligadas aos dispositivos discutidos, enquanto as obrigações gerais de prevenção previstas nas NR-1 e NR-17 continuam em vigor. A suspensão também não paralisa a Inspeção do Trabalho: a fiscalização segue podendo inspecionar, notificar e exigir a comprovação documental do gerenciamento, e o que ficou suspenso é a consequência punitiva ligada àqueles dispositivos. Do mesmo modo, as ações individuais por adoecimento, assédio e sobrecarga seguem seu curso na Justiça do Trabalho, sem relação com a liminar. A empresa pode aproveitar esse período para organizar o método, ouvir os trabalhadores e registrar as primeiras medidas antes que a discussão judicial termine.
Acervo MIMO · Ilustração editorialPrevenção visível: a conversa ganha consequência quando muda a sequência, o recurso ou a proteção do trabalho
O que precisa estar à mão numa inspeção?
Inventário atualizado, acompanhado dos critérios usados para definir severidade, probabilidade e nível de risco.
Plano de ação ligado às prioridades do inventário, com responsáveis, prazos e formas de acompanhar cada resultado.
AEP e, quando necessária, AET conectadas ao GRO e coerentes com as conclusões registradas no PGR.
Registros da participação dos trabalhadores e da CIPA em observações, reuniões, validações ou devolutivas, sempre com proteção dos dados pessoais.
Histórico das mudanças, das reavaliações e também das medidas que precisaram de correção. Esse percurso mostra como a empresa aprendeu com o acompanhamento.
A documentação pode ser física ou digital e precisa estar disponível para a Inspeção do Trabalho, os trabalhadores e suas representações. Com esse material, todos conseguem reconstruir a decisão: o que foi observado, por que recebeu prioridade, quem ficou responsável e o que aconteceu depois.
Um roteiro para os próximos noventa dias
Primeiro mês: reúna o PGR, a AEP, os dados de jornada, os afastamentos, os acidentes, a rotatividade e os relatos da CIPA. Escolha duas ou três atividades críticas e acompanhe a rotina ao lado de quem a executa.
Segundo mês: identifique os perigos, registre os critérios, avalie e defina as prioridades. Depois, confira os achados com os trabalhadores sem expor respostas individuais.
Terceiro mês: leve cada prioridade ao plano de ação, com responsável, prazo e indicador. Comece por uma mudança concreta, acompanhe o resultado e reavalie o risco.
A próxima revisão começa na rotina
O histórico do inventário deve ser conservado por pelo menos vinte anos. Ao longo desse período, o PGR acompanha as mudanças do trabalho. A empresa revê a avaliação quando uma medida falha, após acidente ou doença, diante de nova exigência legal e nas demais situações previstas na norma.
Quando a equipe percebe que uma escala melhorou, uma meta voltou a caber no dia ou uma conversa deixou de terminar em medo, o PGR ganha consistência. O registro registra o motivo da mudança e mostra, com o passar do tempo, se ela funcionou.
Acervo MIMO · Ilustração editorialMudança concreta: acompanhar o resultado permite manter o que funcionou e corrigir o que ainda pesa na rotina
Onde conferimos
Brasil. Ministério do Trabalho e Emprego. Norma Regulamentadora nº 1: disposições gerais e gerenciamento de riscos ocupacionais. 26/05/2026. Abrir fonte
Brasil. Ministério do Trabalho e Emprego. Programa de Gerenciamento de Riscos: PGR. 26/05/2026. Abrir fonte
Brasil. Ministério do Trabalho e Emprego. Manual de interpretação e aplicação do capítulo 1.5 da NR-1: GRO e PGR. 01/05/2026. Abrir fonte
Brasil. Ministério do Trabalho e Emprego. Perguntas e respostas sobre o capítulo 1.5 da NR-1: GRO e PGR. 30/04/2026. Abrir fonte
Brasil. Ministério do Trabalho e Emprego. Norma Regulamentadora nº 17: ergonomia. 01/01/2026. Abrir fonte
Fundacentro. Diretrizes para aplicar a NR-1 com a inclusão dos riscos psicossociais. 26/05/2026. Abrir fonte
Supremo Tribunal Federal. STF suspende sanções da NR-1 e abre conciliação sobre regras de riscos psicossociais no trabalho. 25/06/2026. Abrir fonte
Autoridade Nacional de Proteção de Dados. Perguntas frequentes sobre a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais. 12/06/2026. Abrir fonte
Acervo MIMOA vida ao redor · O telefone ocupa poucos minutos, mas pode mudar a sensação com que a pessoa volta para o próprio dia
Cabeça em Dia
14 min de leitura
Por que as redes sociais deixam tanta gente ansiosa?
Elas não inventaram a comparação, o medo de ficar de fora nem a necessidade de aprovação. Colocaram tudo isso no bolso, com notificações e um feed que nunca termina.
Você pega o celular para responder uma mensagem e, antes de guardá-lo, já viu alguém viajando, uma conquista anunciada, um corpo aparentemente perfeito, uma notícia ruim, uma discussão, uma festa para a qual não foi e uma promoção que termina hoje. Foram poucos minutos, e mesmo assim você sai dali com a impressão de estar atrasado, produzindo pouco, vivendo menos que os outros. Nem sempre é uma sensação forte; às vezes é só uma inquietação, a vontade de olhar de novo, a dificuldade de se concentrar, o impulso de conferir se alguém respondeu, curtiu ou visualizou.
As redes não criaram a ansiedade. A gente sempre se comparou, teve medo de ser esquecido e quis saber o que os outros pensavam. A diferença é que agora tudo isso acompanha a pessoa o dia inteiro.
A ciência ainda não encontrou um único culpado
A pergunta "redes sociais causam ansiedade?" não tem resposta simples. Uma revisão publicada em 2024 no JAMA Pediatrics reuniu 143 estudos, com dados de mais de 1 milhão de adolescentes, e encontrou em média uma associação entre o uso das redes e sintomas de ansiedade e depressão, pequena e muito variável de um estudo para outro. O efeito existe para parte das pessoas; daí não se conclui que as redes produzam ansiedade em qualquer um.
Dois estudos recentes mostram por que a resposta pede cuidado. O primeiro acompanhou 25.629 adolescentes ingleses por três anos e, depois de separar as diferenças individuais entre os participantes, não encontrou evidência de que mais tempo de rede previsse ansiedade ou depressão mais tarde. O segundo, o SCAMP, seguiu 2.350 adolescentes de Londres e observou outro quadro: quem passava mais de três horas por dia nas redes aos 11 ou 12 anos chegou aos 13 a 15 com mais sintomas do que quem usava até meia hora, e, para a ansiedade clinicamente significativa, o grupo de maior uso teve chances 60% maiores. Também aqui o estudo mostra associação, sem provar causa única. Os dois resultados não se anulam, porque os grupos, os métodos e as perguntas eram diferentes, e juntos ensinam que contar horas não basta.
Duas pessoas podem passar a mesma hora no Instagram. Uma conversa com amigos, encontra apoio e fecha o aplicativo se sentindo bem; a outra compara o próprio corpo, acompanha discussões, procura aprovação e espera uma resposta que não chega. No relógio, o uso foi igual. Na cabeça, foram experiências completamente diferentes.
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A vida dos outros chega editada
Ninguém publica a própria vida inteira. Publica a viagem sem a discussão que houve no hotel, a promoção sem os anos de insegurança, a foto bonita do casal sem o silêncio dentro de casa, o corpo no melhor ângulo, com a melhor luz e, muitas vezes, depois de tratamentos, filtros e várias tentativas. Mesmo quem sabe de tudo isso se compara.
Num estudo com 200 crianças e adolescentes de 10 a 14 anos, acompanhados por 14 dias com perguntas diárias sobre redes, autoestima e comparação, os dias de maior uso foram também os de pior percepção de si, e parte dessa relação passava pela impressão de que os outros eram mais bonitos, mais populares ou viviam melhor. Outro trabalho aproveitou a chegada gradual do Facebook às universidades americanas, no início da plataforma, como experimento natural: onde a rede entrava, os indicadores de saúde mental pioravam e cresciam as dificuldades acadêmicas ligadas ao sofrimento emocional, com a comparação desfavorável apontada como explicação provável. O Facebook daquela época não é o aplicativo de hoje, e o mecanismo continua reconhecível: quanto mais a vida alheia fica disponível, maior o material de comparação, e quase sempre comparamos o nosso dia comum com o melhor momento que alguém decidiu mostrar.
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A aprovação ganhou um placar
Antes das redes, uma conversa podia terminar e deixar dúvida. Hoje parte dessas dúvidas ganhou horário, número e confirmação de leitura: visualizou e não respondeu; todo mundo curtiu, menos ele; minha foto teve menos comentários. A interação virou medição, e curtidas, seguidores e visualizações funcionam como pequenos sinais públicos de aceitação ou rejeição. Para algumas pessoas, isso pouco importa. Para outras, começa o ciclo de conferir, apagar, repostar, interpretar e esperar.
Uma metanálise de 2024, que reuniu 172 artigos, 209 amostras e mais de 252 mil participantes de 28 países, encontrou correlações moderadas entre o chamado uso problemático das redes e ansiedade generalizada, ansiedade social, ansiedade nos relacionamentos e medo de ficar de fora. Uso problemático não é sinônimo de muito tempo online: é o padrão em que a pessoa tem dificuldade de parar, volta às redes no automático e deixa que elas disputem espaço com sono, trabalho, estudo e relacionamentos. A maior parte desses estudos era transversal, ou seja, mostra ansiedade e uso problemático andando juntos sem conseguir dizer quem chegou primeiro.
O medo de ficar de fora nunca descansa
Antes, uma festa para a qual você não foi acabava quando a festa terminava. Agora ela continua nos stories: quem estava lá, quem chegou depois, quem ficou perto de quem, o que aconteceu quando você já dormia. A expressão inglesa fear of missing out, o FoMO, dá nome a esse medo de que os outros estejam vivendo algo importante sem você, e na metanálise dos 252 mil participantes foi justamente o FoMO que apresentou uma das associações mais fortes com o uso problemático. Como o feed nunca termina, também nunca chega o momento em que a pessoa possa se dar por satisfeita: sempre parece haver uma conversa, uma oportunidade ou um acontecimento exigindo acompanhamento.
O sono paga parte da conta
Muita gente percebe a ansiedade nas redes e não percebe o que acontece depois que o celular é guardado. No SCAMP, parte da associação entre o uso prolongado e os sintomas posteriores passou pelo sono insuficiente e pela demora para adormecer: nos modelos estatísticos, os problemas de sono explicaram de 11% a 33% dessas associações, conforme o desfecho analisado. O celular na cama não incomoda só pela luz da tela. Há mensagens pedindo resposta, vídeos que estimulam, discussões que irritam e notícias que assustam, que mantêm a cabeça funcionando quando o corpo deveria desacelerar.
Um estudo com 10.904 adolescentes de 14 anos encontrou relações parecidas: mais rede, pior sono, assédio online, autoestima baixa e insatisfação com o corpo, tudo ligado a mais sintomas depressivos, sem que o desenho observacional permita cravar a ordem dos fatores. A pessoa dorme tarde, acorda cansada, fica irritável e vulnerável à preocupação, e no dia seguinte usa o celular para se distrair do próprio desconforto. O ciclo recomeça.
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Às vezes, a ansiedade vem primeiro
Também existe o caminho contrário. Quem já está ansioso pode procurar as redes com mais frequência para se distrair, evitar uma conversa presencial, buscar confirmação de que está tudo bem ou conferir repetidamente se alguém respondeu. O alívio dura pouco; logo surge outra notificação, outra dúvida, outra coisa para verificar. Por isso a seta não aponta sempre da rede para a ansiedade. Em muitas situações a relação é circular: a ansiedade leva a mais conferência, que leva a mais comparação e a menos sono, e tudo devolve mais ansiedade. O estudo dos 25.629 adolescentes, que não encontrou efeito posterior do tempo de uso, reforça que a rede não deve virar explicação automática para todo sofrimento emocional.
A seta anda nos dois sentidos. As redes podem aumentar a ansiedade, e quem já está ansioso também recorre mais a elas. Desenhar o circuito numa direção só afirmaria causa onde a pesquisa mostra associação.
Nem todo mundo sai pior das redes
Nada disso torna as redes sempre prejudiciais. Elas aproximam pessoas, mantêm amizades, criam comunidades e fazem companhia a quem está isolado. Um estudo pequeno, com 63 adolescentes de 14 e 15 anos e 2.155 avaliações feitas em tempo real, mediu como cada um se sentia logo após o uso passivo: 44% não notaram diferença, 46% se sentiram melhor e cerca de 10% se sentiram pior. O estudo mediu uma sensação momentânea, e não um transtorno de ansiedade. O aplicativo pode ser o mesmo; o efeito depende de quem usa, do momento emocional, do conteúdo que aparece e do que aquele uso está substituindo. Além de quanto tempo você passa nas redes, importa como você fica depois de sair delas.
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Parar ou reduzir ajuda?
Alguns experimentos sugerem que sim, ao menos no curto prazo. Num ensaio randomizado, 154 adultos com idade média de 29,6 anos foram divididos entre uma semana sem Facebook, Instagram, Twitter e TikTok e uma semana de uso habitual; o grupo que interrompeu terminou com melhor bem-estar e menos sintomas de ansiedade e depressão, num estudo de apenas sete dias, que não responde o que aconteceria em meses. Outro ensaio acompanhou 220 jovens de 17 a 25 anos que já apresentavam sofrimento emocional; os orientados a limitar as redes do celular a cerca de uma hora por dia, durante três semanas e com o tempo medido pelo próprio aparelho, tiveram queda maior de ansiedade, depressão e FoMO, além de mais tempo de sono. Esses estudos não estabelecem uma receita universal de uma hora por dia nem mandam ninguém abandonar as redes; mostram que, para algumas pessoas, reduzir o uso funciona como um teste revelador.
A rede não explica tudo
As redes podem ampliar uma ansiedade que já existia, roubar horas de sono e prender a pessoa num circuito de comparação e expectativa, e mesmo assim não são a origem de toda ansiedade. Quando a preocupação continua longe do celular, provoca crises, altera o sono ou começa a atrapalhar trabalho, estudo e relacionamentos, o cuidado precisa ir além da tela, com avaliação profissional. Apagar um aplicativo ajuda; não substitui o cuidado com a saúde mental. Importa menos o tempo que você passa nas redes e mais o que encontra ali, como se sente depois e o que deixou de dormir ou de viver enquanto a tela rolava.
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Não é só quanto tempo. É o que acontece durante esse tempo.
Uso que aproxima
Conversar com alguém de verdade
Encontrar apoio em quem passa pelo mesmo
Aprender algo que você queria saber
Manter contato com amigos e família distantes
Uso que esgota
Comparar-se o tempo todo
Conferir curtidas, respostas e visualizações
Acompanhar conflitos alheios
Perder horas de sono
Sentir que está sempre ficando de fora
O objetivo não é vencer o telefone. É descobrir se o uso ainda está servindo à vida que acontece fora dele.
Onde conferimos
Fassi L. et al.. Social media use and internalizing symptoms in clinical and community adolescent samples: a systematic review and meta-analysis. JAMA Pediatrics. 01/08/2024. DOI 10.1001/jamapediatrics.2024.2078
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Shen C. et al.. Social networking site use, depressive and anxiety symptoms in adolescents: evidence from a longitudinal cohort study (SCAMP). BMC Medicine. 03/02/2026. DOI 10.1186/s12916-026-04667-5
Du M. et al.. Association between problematic social networking use and anxiety symptoms: a systematic review and meta-analysis. BMC Psychology. 01/05/2024. DOI 10.1186/s40359-024-01705-w
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Braghieri L.; Levy R.; Makarin A.. Social media and mental health. American Economic Review. 01/11/2022. DOI 10.1257/aer.20211218
Kelly Y.; Zilanawala A.; Booker C.; Sacker A.. Social media use and adolescent mental health: findings from the UK Millennium Cohort Study. EClinicalMedicine. 01/12/2018. DOI 10.1016/j.eclinm.2018.12.005
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